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Quando a Copa do Mundo atingiu uma das mais belas vistas do Rio de Janeiro

Por Vítor Lira, morador do Pico de Santa Marta, em depoimento a Mariana Lacerda, em novembro de 2013

Aqui a vista é de 180 graus. Laranjeiras, Urca, Leme, Copacabana, Arpoador, Ipanema, Leblon, Gávea, Jardim Botânico e Corcovado. Estamos pertinho do Cristo e bem abaixo do Mirante de Dona Marta, um dos pontos turísticos mais visitados do Rio de Janeiro.

O Pico de Sabra Marta passou de lugar marginalizado a uma das áreas mais valorizadas do Rio de Janeiro. Por isso mesmo, querem tirar nossas famílias daqui.

A ocupação do morro começou por cima, pelo Pico, mas uma parte também veio por baixo. Meus filhos são possivelmente a quinta geração do Pico Santa Marta. São 52 casas no Pico, onde todo mundo se conhece, como se fosse uma família.

O Pico era o pior lugar do morro de Santa Marta. São 788 degraus para alcançar minha casa. Ninguém vinha aqui, a não ser a policia, que chegava de carro por cima [Vítor refere-se a uma caminho que, até 2008, não era asfaltado, e que se dá através do bairro Laranjeiras, a partir da rua General Glicério]

A favela de Santa Marta foi a primeira do Rio de Janeiro a receber uma UPP [Unidade da Policia Pacificadora].  O que é isso? Ao meu ver, é a militarização da favela. A UPP ocupa uma casa que foi construída para abrigar uma creche. 

Temos que pedir autorização à UPP quando queremos realizar festas, usar o campo de futebol. Instalaram a UPP e em menos de uma semana veio o asfalto até aqui.

Cresci vendo pessoas sendo mortas pela policia. Cresci ouvindo os corpos sendo arrastados com suas cabeças toc toc toc batendo por essas escadas. Como agora posso achar normal ver a policia todo santo dia na minha frente? Não temos mais tiros nem traficantes e isso é muito bom. Mas não defendo a militarização da favela.

A presença das UPPs foi um paliativo para trazer o que eles chamam de “paz” às favelas. Mas paz para quem? Para os turistas que estão chegando com as proximidades dos mega eventos. As primeiras quatro UPPs do Rio de Janeiro foram instaladas nos bairros da Zona Sul, exatamente onde existem o interesse comercial nessa áreas em função do turismo. Esse turismo chegou.

Veio a UPP, depois asfaltaram o caminho. O Pico tornou-se alternativa de acesso ao Mirante de Santa Marta, porque o caminho atual está saturado. O Pico era o pior lugar do morro. Mas com o acesso que pode se dar por carro, e também após inauguração do plano inclinado [ em 2008, espécie de elevador inclinado que conduz pessoas a partir da base do morro de Santa Marta até bem próximo ao Pico), tornou-se um lugar muito cobiçado. Agora, o Estado quer nos remover porque falam que estamos ocupando uma área de risco. Quando chove, anunciam que devemos abandonar a área. Mas, para onde vou?

O Estado e a prefeitura falam que urbanizaram o morro. Mas urbanizaram como e para quem? O esgoto continua correndo a céu aberto. As escadas foram padronizadas, colocaram corrimão. Colocaram também iluminação pública. E o morro agora  tem também wi-fi. Mas todos esses serviços não alcançam o Pico, porque querem nos tirar daqui. Estão fazendo todo o tipo de pressão para nos remover. Falam que estamos em área de risco. Há um laudo da Geo Rio [empresa da prefeitura] que afirma que estamos em área de risco de deslizamento. Mas também temos um contra-laudo [feito pelo engenheiro voluntário Mauricio Campos]. Todos nós sabemos que o que precisamos é de melhor infraestrutura.

O trabalho com o turismo surgiu após a instalação da UPP, quando a favela foi, como se diz, pacificada. Eu entrei num estágio para ser guia e comecei a trabalhar com turistas também [por meio de um programa do governo federal de incentivo ao turismo em favelas do Rio de Janeiro]. Perdi mina licença porque falava a verdade sobre o morro [a licença de trabalho de Vitor já foi recuperada]  Quando guio turistas, eu conto a história do morro que eu vi, vivenciei. A histórias dos trabalhadores que construíram a Zona Sul do Rio de Janeiro e passaram a viver aqui. Eu conto a história da violência, que é também a história do Brasil

Eu conto a história do Dedé. Um dos pontos turísticos daqui do Morro é a Laje de Michael Jackson, que gravou um clip aqui no Morro. Ele foi muito gentil com a gente, desceu essas escadas falando com todo mundo.  Mas antes disso, o lugar era chamado de Laje de Cultura Dedé.  O Dedé era um cidadão do morro que morreu eletrocutado ajudando um amigo. Então os moradores do morro resolveram homenageá-lo colocando nome dele nessa laje, que mudou de nome para agradar aos turistas. As ruas também mudaram de nome. Rua das Rosas tornou-se “Aroma de Rosas”. Como podemos aceitar isso?

É a história real do morro que conto quando os turistas vêm aqui. Não é uma história boa nem ruim, bonita ou feia. É simplesmente a história. Valeu crescer aqui? Valeu, está valendo. Mas a truculência com a qual cresci, vendo as pessoas sofrendo todo tipo de violência, isso não dá para esquecer em nome do turismo.

Nota adicional:

A Comissão de Moradores do Pico de Santa Marta, apoiada do Fundo Socioambiental Casa, é a principal entidade, da qual Vitor faz parte, pela luta contra a remoção das 52 casas existentes no morro. A comunidade do Morro de Santa Marta está localizada no bairro de Botafogo, na Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro, uma das áreas com o preço mais caro por metro quadrado do mundo. O Santa Marta possui uma área de aproximadamente 54.692m2, onde reside uma comunidade com cerca de 4.800 moradores, distribuídos em 1.370 residências – segundo dados da pesquisa Turismo e Favela: um estudo sobre a Favela Santa Marta (da Universidade Federal do Rio de Janeiro). A história de ocupação do morro é antiga, possivelmente da década de 1920, dada pelos trabalhadores que construíam a capela e a expansão do Colégio Santo Inácio, pertencente aos padres jesuítas, localizado na Rua São Clemente no bairro de Botafogo.

 

Pequenos relatos de tristeza – Sobre a construção da Cidade da Copa, em Pernambuco.

Relatos sobre amigos e vizinhos que passam mal do coração ou entram em depressão ao não agüentar encarar a possibilidade de, com os poucos recursos de indenizações, se verem obrigados a deixar suas atuais casas.

Trata-se tristeza daqueles que têm que abandonar o seu lugar, onde construíram suas pequenas casas, fizeram suas vidas, onde trabalham e os filhos estudam, para ceder lugar às obras de infraestrutura da Copa do Mundo 2014.

A depressão sentida por essas pessoas é o ponto comum dos depoimentos colhidos por Andréia Luna, em seu vídeo Gol Contra

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Falta de informação, promessas vazias, indenizações precárias são as principais reclamações dos personagens ouvidos por Andréa, à frente do Copa Favela 2014, organização em Pernambuco para articulação de apoio e denúncia às pessoas que estão sendo afetadas pela realização da Copa do Mundo.

“Humilhação”, diz seu Genoíno, no vídeo. “Esgoto que escoa na cara da cidade”, é o que denuncia Valério, também personagem.

O chamado “Ramal da Copa”, um acesso rodoviário de 6,3 km de extensão, vai  cruzar as cidade de Camaragibe e São Lourenço da Mata, para alcançar a BR-408, que está sendo duplicada. Com essa ligação viária, essas cidades se consolidam como parte estendida da malha urbana de Recife, colocando em risco o que ainda resta de vida rural na região, fazendo deste um complexo que está sendo chamado de Cidade da Copa, também uma “nova centralidade” alternativa à cidade do Recife.

Itaipava Arena Pernambuco é o estádio de futebol que está sendo construído em São Lourenço da Mata, cidade dos arredores do Recife, para abrigar os cinco jogos  da Copa do Mundo no estado de Pernambuco. A arena tem capacidade para 46.000 pessoas e o custo estimado de investimentos é de R$ 532 milhões. Itaipava, vale dizer, é nome de uma cerveja brasileira, patrocinadora da Arena.

Segundo a urbanista Raquel Rolnik, em seu relatório para a ONU intitulado Copa 2014, Olimpíadas 2016 e Mega projetos, Remoções em Curso no Brasil, a principal queixa de moradores que estão sendo removidos de suas residências, de redes de direitos humanos e fóruns de reforma urbana, se dá com relação à falta de transparência e de espaços de participação social e diálogo sobre o processo de preparação da cidade para a Copa do Mundo de 2014.

Há ainda a ausência de debate sobre o modelo de financiamento e gestão Arena da Copa, que está sendo construída via Parceria Público Privada pela Odebrecht, que terá a concessão do equipamento por 33 anos.

De fato, segundo o vídeo Gol Contra, documentário realizado por meio de apoio do Fundo Socioambiental CASA, até hoje, a menos de um ano da realização dos jogos da Copa, ainda não se tem divulgado oficialmente o numero de remoções já ocorridas ou que vão acontecer para implementação da infraestrutura da Copa do Mundo 2014.

O descaso com a população que vive nas regiões que margeiam a arena é o principal tema desse documento visual,  com depoimentos daqueles que, por conta da Copa do Mundo, pouco ou nada sabem sobre o futuro de suas vidas.

Diafragma do Mangue, ensaio fotográfico

O Projeto Diafragma do Mangue, realizado pela Ação Comunitária Caranguejo Uçá, percorreu seis comunidades pesqueiras do Recife: Brasília Teimosa, Ilha de Deus, Bode e Beira Rio/Coque/Ilha do Zecas.  Todo percurso foi feito de barco, com a intenção de revelar, em um registro fotográfico, os impactos socioambientais que de alguma forma se  relacionam com a implantação da infraestrutura da Copa do Mundo 2014.  Ao final desse levantamento de imagens, ficou clara a ausência de políticas públicas essenciais à vida, apesar dos esforços e investimentos públicos para realização desse megaevento em Pernambuco.

 

 

Copa Pantanal

Documentário realizado em Cuiabá, uma das cidades-sedes dos jogos da Copa do Mundo de 2014.

Em Cuiabá, a construção da Avenida Parque do Barbado já se arrasta por mais de 20 anos. Porém, com a chegada da Copa do Pantanal, o projeto ganhou novo fôlego para ser implementado. Apesar da proximidade dos jogos, ninguém sabe ainda qual será o legado da Avenida e muito menos da Copa do Pantanal, diante de notícias pouco claras sobre remoções de moradores por onde a Avenida passará, assim como suas compensações ambientais. O vídeo é uma realização do Instituto Cidade Amiga e Espaço Vitória.

Fragmentos de uma única História

Em agosto de 2013, representantes de comunidades que têm suas vidas modificadas por conta da realização da Copa 2014 no Brasil se reuniram em São Paulo.

Como transformar fatos em narrativas fotográficas, visuais, em texto ou vídeos documentários? Como gerar arquivos que possam ser compartilhados, com registros importantes de fragmentos isolados de uma única história?

Seguindo essas perguntas,  durante o encontro, ouvimos jornalistas, cineastas, fotógrafos quadrinistas, ilustradores. Pessoas que têm em seu cotidiano o trabalho de produzir narrativas. Um time de peso que dividiu conosco suas experiências em contar histórias.

Este vídeo, produzido pelo Fundo Socioambiental CASA, é um pequeno registro deste encontro.

A partir dele, cada comunidade voltou para casa com a incumbência de devolver uma narrativa sobre os impactos sociais e ambientais causados pela realização da Copa do Mundo em 2014 no Brasil.

Este blog mostrará, ao longo do ano, essas histórias.

Video with english subtitles:

Para pensar um país

Este blog se inicia em 2014, ano em que o Brasil sedia a Copa do Mundo.

Em razão dos megaeventos, que tipo de transformações definitivas estamos vendo surgir em nossas cidades e também em comunidades praieiras e rurais?

Como a implementação da infraestrutura da Copa tem modificado vidas? O que essas vidas nos contam? Onde, exatamente, elas se situam na história política e social de nosso País?

O Fundo Socioambiental Casa (Fundo CASA), em parceira com a ONG holandesa Both ENDS, está buscando ouvir esses testemunhos.

Faz isso ao apoiar organizações de todo Brasil, por meio do projeto A Copa do Mundo em Meu Lugar.

Em troca, essas comunidades devem devolver suas narrativas sobre um Brasil que se modifica em passos largos, a despeito de sua gente, seus ambientes naturais, sua cultura, seu próprio povo.

Esse blog reúne essas histórias que, pouco a pouco, estão sendo consolidadas pelos grupos apoiados e que portanto irão ocupar este espaço.

Um lugar virtual que será, também, um arquivo de memórias que podem ser conhecidas a qualquer momento.

Um ponto de partida e de chegada. Sobre este momento específico da história do Brasil e que não queremos passar sem que deixemos a nossa versão da história.